Reformas de Clístenes: O Demo e a Nova Organização Social de Atenas

As reformas demes e tribais de Clístenes (o Demo)

O governo local era anteriormente controlado pelas fratrias (irmandades), que eram dominadas pelos clãs aristocráticos (gene)

O sistema de ‘fratria’ enfatizava e reforçava o poder da aristocracia porque sua estrutura era por natureza hierárquica: todas as diretivas nacionais do governo central, como em questões de tributação ou serviço militar, seriam repassadas ao líder da fratria, que seria responsável pela organização e supervisão de tudo o que fosse exigido da comunidade local. Essa liderança da fratria era hereditária e, portanto, antidemocrática, pois não era nem responsável nem aberta à reeleição. Esse controle das fratrias também concedia aos clãs aristocráticos o direito indiscutível de decidir quem eram e quem não eram cidadãos atenienses legítimos, já que a filiação à fratria era o único critério formal para a cidadania antes de Clístenes – um poder que foi usado com consequências terríveis para os novos cidadãos após a queda de Hípias (Ath. Pol. 13.5). Embora Aristóteles enfatize a incorporação desses novos cidadãos ao corpo político como um motivo primário para a reforma do demo de Clístenes, ele também implica fortemente que ela visava quebrar o monopólio aristocrático de poder em nível local (Ath. Pol. 21.2–4).

Assim, a reforma do governo local foi um dos principais objetivos de Clístenes. Ele removeu todas as funções políticas das fratrias, permitindo que continuassem em uma capacidade puramente social e religiosa (Ath. Pol. 21.6). Em seu lugar, estabeleceu o demo como a principal instituição política do governo local. Os demos eram comunidades locais de diferentes tamanhos, semelhantes a aldeias, que provavelmente existiam na zona rural da Ática desde o século VII (699–600), mas que na cidade e seus subúrbios tiveram que ser estabelecidas pela primeira vez por Clístenes; havia um total de 139 ou 140 demos em toda a Ática. A diferença definitiva entre o demo e a fratria era sua constituição democrática. O novo líder do demo era o ‘demarco’, agora com toda a probabilidade eleito por um ano por seus companheiros demesmen. Além disso, todas as questões que afetavam o demo eram decididas pelas assembleias do demo, às quais todo cidadão ateniense com dezoito anos ou mais tinha o direito de comparecer em seu próprio demo. Cada demo também seria responsável pela manutenção de sua própria propriedade, de um registro atualizado de seus membros e de seus próprios cultos e santuários, que foram estabelecidos (assim como os novos cultos tribais) como um novo foco de lealdade para os demesmen em competição com os cultos da fratria dominados pela aristocracia.

Clístenes garantiu que a filiação a um demo não apenas constituiria a cidadania ateniense, mas também ocultaria a identidade dos novos cidadãos:

Aristóteles, Ath. Pol. 21.4

Ele fez com que aqueles que viviam em cada um dos demos fossem companheiros demesmen uns dos outros para que não revelassem os novos cidadãos chamando-os pelo nome de seu pai, mas pelo nome de seu demo; esta é a razão pela qual os atenienses se chamam pelos nomes de seus demos.

Assim, a igualdade de status dentro do demo foi tornada uma característica importante da reforma. Também foi eficaz em enfraquecer a organização local de parentesco, dando o nome de um clã ao novo demo com seus novos cidadãos. Um bom exemplo disso é a alocação do nome aristocrático ‘Boutad’ a um demo, já que todo demesmen, por mais humilde ou estrangeira que fosse sua origem, a partir de agora compartilharia esse nome com os descendentes reais do aristocrata Boutas. Tão eficaz foi isso que, mais tarde, no século IV, o clã dos ‘Boutadai’ sentiu a necessidade de renomear-se como ‘Eteoboutadai’ (‘os verdadeiros descendentes de Boutas’) em uma tentativa de preservar algum grau de distinção. A filiação ao demo tornou-se hereditária a partir do momento do registro sob Clístenes, e todos os descendentes futuros mantiveram a filiação a esse demo em particular, onde quer que residissem nas gerações futuras.

Dessa forma, o demo tornou-se o centro da vida social, mas, mais importante, da vida política. A assembleia do demo era uma miniatura da Ecclesia (Assembleia) e fornecia o campo de treinamento perfeito para aqueles que desejavam desempenhar um papel ativo na tomada de decisões do estado em nível nacional. Além disso, a filiação ao demo era um pré-requisito para o cargo de conselheiro na Boulé de 500, pois cada demo era representado no conselho nacional por uma cota fixa de conselheiros em proporção ao seu tamanho em 508/7. O demo foi essencial para o desenvolvimento da democracia ‘radical’ no final do século V. A experiência de participar das assembleias do demo, de servir como demarco, como conselheiro na Boulé e nos tribunais, gradualmente gerou entre os cidadãos comuns a autoconfiança e a autoconvicção em sua capacidade de dar uma contribuição efetiva ao governo de Atenas. Mais tarde, como resultado dessa experiência, surgiu o desejo de realizar o controle total e direto do governo do estado por eles mesmos.